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História e Narrativas Pataxó

Txôpay

Txôpay, o Deus guerreiro que desceu à Terra, ensinou seu povo a sobreviver caçando, pescando, plantando e colhendo. Ensinou a época para cada atividade de acordo com as diferentes fases da lua. Na época da lua cheia, todos sabiam que no litoral era tempo de fartura de peixe e outros frutos do mar. Aprendemos a viver em harmonia e comunhão com a natureza.

Pataxó

Certo dia, um grupo de índios estava pescando quando ouviu o som das águas do mar, batendo nas pedras. O primeiro encontro da água com a rocha fazia “PA”, as águas subiam e, ao descer, batiam novamente nas pedras fazendo “TA”, e ao retornarem para o mar faziam “XÓ”. A partir desse momento, aquele grupo nômade que vivia livremente no litoral ficou conhecido como o povo “PATAXÓ”.

Mito da criação da mandioca, da farinha e da jaroba

(cauim)

Isso aconteceu há muito tempo mesmo, quando Txôpay estava andando pela terra e ia ensinando toda a sua sabedoria a seus parentes. A mandioca ia ser deixada para ser plantada na terra e quando ela estivesse no ponto de ser desfrutada pelo índio, não seria preciso arrancar, raspar, relar e torrar para fazer a farinha. Os pés das mandiocas seriam plantados e dariam com pouco tempo, em cada pé, uma quantidade de cabaças cheias de farinha. Quando arrancasse ali, não precisaria de mais nada, era só comer a farinha que já vinha pronta. Ela seria de dois tipos: a de puba e a de guerra. Aquele que experimentasse e gostasse de uma das duas, começaria a cultivar a plantação do tipo que gostasse.

Mas a história é que o danado do índio achou que assim não iria dar certo e perguntou para Txôpay:

- E a jaroba, Txôpay?

O índio achou que se tivesse a farinha pronta, não teria como fazer a jaroba. Por isso, nosso protetor falou:

- Então vai ficar do jeito que está pedindo, só que você vai esperar um ano e vai ter muito trabalho para plantar a mandioca, limpar a roça, e quando for arrancar, tenha muito cuidado para não machucar a raiz, senão ela ficará amarga. Vai raspar a mandioca para tirar parte da casca que é venenosa, ralar a mandioca e também os dedos para tirar o sangue ruim do corpo e torrar a farinha para poder comê-la.

O índio estava com tanta vontade de beber a jaroba que não esperou nem a mandioca fazer um ano, arrancou-a e fez a jaroba. Foi aí que pela teima do índio, a jaroba azedou e ele adorou. Por isso que da mandioca fazemos a jaroba das festas e rituais, mas é preciso arrancar a mandioca antes de um ano. A mandioca serve também para fazer farinha, beiju, comer assada ou cozida.

De qualquer jeito o índio ganhou muito, não foi? Txôpay já sabia que era assim mesmo, mas ele queria fazer a coisa ficar melhor para o índio, mas o índio não quis.

Com isso, o índio ganhou várias coisas: a mandioca, a farinha e a jaroba.

História da Patioba

A patioba é uma planta que tem diversas utilidades para o povo Pataxó, serve como embalagem para transportar farinha, animais mortos e ambém como meio de comunicação.

A patioba também guarda muitos segredos: nos seus pés mora NAÔ KATUBAYÁ (Espírito da Mãe da Mata). Quando alguém vai para as florestas caçar e por alguma malvadeza fere um animal, ou corta árvores sem necessidade, a pessoa é encantada por esse espírito, que o deixa perdido na floresta sem encontrar o caminho de volta. Mesmo que ela passe perto do caminho, na vista dela, está tudo cerrado. Se a pessoa não souber fazer uma simpatia para prender este espírito, ela fica perdida a vida toda. Como os Pataxó conhecem os segredos da floresta, conseguem desfazer o encanto com facilidade. Depois de liberta, a pessoa deve voltar ao local para desfazer a simpatia e soltar o espírito, caso contrário o espírito prende novamente a pessoa na floresta44.

A lenda de Amesca

A amesca é uma árvore medicinal usada pelo povo Pataxó na prevenção de várias doenças, tais como sinusites, dores de cabeça e várias outras.

A Amesca era uma índia pataxó que desde criança foi escolhida pelo seu povo para ser uma grande guerreira, por isso ela não podia se casar e ter filhos. Passados muitos anos, Amesca cresceu e se tornou uma jovem muito bonita e logo se apaixonou por um índio que também era Pataxó.

Logo Amesca engravidou e até então estava tudo bem, mas com o passar do tempo, Amesca descobriu que estava grávida de gêmeos. Segundo os mais velhos da sua aldeia, quando uma índia ficasse grávida de gêmeos teria que sacrificar um dos dois, pois acreditavam que um deles viria para praticar o bem e o outro para fazer o mal. Amesca não queria que seu filho morresse e então passou os nove meses chorando e pensando no que ela iria fazer para salvar seu filho.

No dia do seu parto, Amesca deu à luz aos seus dois filhos e morreu. Assim, os mais velhos acreditaram que a maldição morreu com ela e que seu filho estava livre da maldição. Então o seu povo enterrou Amesca e foi embora daquele lugar. Passou-se muito tempo até que os Pataxó voltaram ao lugar onde tinham enterrado Amesca e em cima do seu túmulo viram que tinha nascido um grande pé de árvore.

Eles colocaram o nome dessa árvore de Amesca. Essa árvore soltava uma resina branca parecida com uma lágrima e dava duas frutinhas grudadas e muito doces. Os índios logo observaram que essa resina era as lágrimas da índia e que os frutos eram os seus filhos gêmeos.

O Fogo de 51

No ano de 1951, aconteceu uma guerra muito triste em Barra Velha. O capitão da aldeia, Honório Ferreira e mais três Pataxó viajaram até o Rio de Janeiro para reivindicar seus direitos e suas terras. Como não possuíam dinheiro para a viagem, eles saíram a pé, com a previsão de retornar somente quando conseguissem ser ouvidos.

No Rio de Janeiro, o tal Rondon falou que tomaria as devidas providências, enviando engenheiros para demarcar as terras Pataxó. Então Honório e seu grupo retornaram de viagem, mas acompanhados de dois homens brancos que diziam ser engenheiros e que viriam demarcar as terras.

Os dois homens chegaram na aldeia iludindo os índios para roubar a venda do senhor Teodomiro. Os índios receberam-nos inocentemente, sem saber o que poderia acontecer. Fizeram uma reunião e alguns decidiram realizar o saque enquanto outros foram contra. Pegaram Teodomiro, amarraram, carregaram, jogaram-no na praia e roubaram toda a mercadoria. Por uma coincidência, ia passando um homem que perguntou o que estava acontecendo. Teodomiro disse que foram os índios que fizeram isso com ele. Este homem foi até a linha do telégrafo e comunicou à polícia de Porto Seguro e Prado. Quando eles souberam disso, cortaram toda a linha para que não houvesse mais comunicação.

No dia seguinte, de madrugada, os policiais chegaram já atirando. Teve até troca de tiros entre os policiais de Prado e Porto Seguro, que pensaram que os tiros vinham dos índios. Acabaram morrendo nesse tiroteio muitos índios e muitos policiais. Quando os policiais perceberam que não eram os índios que estavam atirando, juntaram suas forças para atacar.

Foi assim que começou o massacre do povo Pataxó. Estupro de mulheres e espancamentos, crianças morrendo nas pontas das baionetas e muitos índios fugindo para a mata, para se esconder. Foi terrível esse massacre e até hoje o povo Pataxó chora quando os mais velhos contam essa história tão triste e violenta.

Os índios que se esconderam nas matas ficaram muito tempo ali. Maria Calango era uma benzedeira que tinha o poder de esconder pessoas e objetos. Nesse período, ela se escondeu num oco de pau velho e a reza era tão forte que fazia as armas não atirarem.

Nesse massacre horrível, arrancaram o couro da cabeça do velho Júlio, fizeram ele comer o próprio couro de sua cabeça e correr de Barra Velha até Caraíva com uma cangalha nas costas, apanhando de chicote. Os velhos e as criancinhas que não podiam correr por ali mesmo iam morrendo, porque os homens entravam dentro das casas a cavalo e pisavam por cima de tudo. Entre outros casos que aconteceram, uma índia pegou carona em um barco até Salvador, fugindo com medo de ser morta.

Povo Pataxó. Inventário Cultural Pataxó: tradições do povo Pataxó do Extremo Sul da Bahia. Bahia: Atxohã / Instituto Tribos Jovens (ITJ), 2011.
1. Pataxó – Bahia. 2. Povos indígenas. 3. História. 4. Cultura. 5. Autonomia. I. Coordenação de Pesquisa da Língua e História Pataxó – ATXOHÃ.

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